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22/09/2016

Até Sócrates foi afetado pela crise


De fato, este tema excita o interesse de todos, ainda mais a esse estado económico que nosso país (Brasil) está passando. Semana passada dei uma palestra na 3ª Feira de Empregabilidade e Empreendedorismo da Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (FADERGS), o tema era sobre a importância dos valores em tempos de crise. Ao ler a ficha de inscrição dos participantes, colocamos algumas questões e uma delas questionava o interesse deles de estar na palestra. A maioria queria uma resposta sobre a crise ou mais conhecimento. Compartilho contigo uma reflexão sobre o tema. Em qual momento de nossas vidas não passamos por uma crise? Todos dias, algumas mais suportáveis, outras nos tiram o chão. Grandes personagens históricas também passaram, passam e passarão por momentos de crise.

Você, caro leitor, sabia que até Sócrates foi afetado pela crise. Curioso?

Fernando Schwarz no livro “Sabedoria de Sócrates” traz uma das mais brilhantes leituras de Sócrates, da sua missão filosófica, a dialética, caminho da felicidade, pedagogia, amor e as crises que o grande filósofo grego passou. Sim, ele passou por três grandes crises que quase o tiraram do seu protagonismo histórico. Vale muito a pena relatar de forma resumida, pois é um ensinamento para nossas vidas.

A primeira crise foi de romper com seu discípulo Alcebíades, um general ateniense que seria o sucessor de Péricles. Alcebíades preferiu uma vida de aparências, atividade guerreira, competição, jogo, prazeres, valorização social e poder do que uma vida guiada pela virtude. Sócrates via o potencial que tinha seu discípulo e seu fracasso o fez compreender que a virtude não se transmite, que cada um deve procurar por si, que ninguém pode vivê-la no lugar do outro. Não se pode ajudar alguém que não quer ajudar-se a si próprio. A humildade se fortalece no coração do filósofo e embarcar na missão de despertar a consciência dos homens, principalmente dos jovens. E não de alguém que é especial.

A segunda crise foi dez anos depois quando seu amigo Querefonte foi ao Oráculo de Apolo, em Delfos, questionar quem era o homem mais sábio de Atenas. Teve a famosa resposta: Sábio é Sófocles, mais sábio é Eurípides, de todos os homens o mais sábio é Sócrates. Ao saber disso Sócrates crava na história da filosofia uma das mais célebres frases: só sei que nada sei. Com isso, vive um novo acesso de depressão, a segunda crise, sem nada compreender do que lhe está a acontecer. Rejeita o que disse o Oráculo e mergulha em longo silêncio. Rompe esse estado querendo provar o erro da sentença e vai à busca dos sábios. Interroga-os aqueles que dominam as diversas disciplinas, porém leva-os, aos poucos, a duvidar da sua própria sabedoria, demonstrando-lhes que na realidade eles ignoram o que pensavam conhecer. Anos depois, ele compreende o ensinamento deixado pelo Oráculo, que a sabedoria consiste em saber que é ignorante. Isso abre a possibilidade para o aperfeiçoamento, conhecendo nossa ignorância.

A terceira crise foi confrontar-se com a própria essência do seu ensinamento. Muito bem exposta na Apologia de Sócrates, quando é acusado: por corromper os jovens, recusa dos deuses tradicionais e criação de novos deuses. Sócrates lutava contra o sistema da paixão corrupção e burocracia que impedia o verdadeiro desenvolvimento dos cidadãos livres e iguais face à lei. Fora isso, também combatia a superstição e não a religião. Condenou a tradição da mitologia grega que antropomorfizava os deuses apresentando-os como seres sujeitos às paixões e destruindo-se entre si. E o novo deus, o daimon, é consciência individual, fundamento da liberdade interior e da dignidade humana. Acabou sendo condenado à morte pelo júri por 281 votos contra 220 por não querer negar seu posicionamento filosófico.

Segundo a tradição ateniense, a lei não fixa a pena, mas uma segunda votação permitia escolher entre as que propõe a acusação por um lado e a defesa par outro. O júri pode escolher uma ou outra. Como a acusação já pediu a pena de morte, cabe a defesa propor uma sanção que pode ser o exílio ou a perda dos direitos cívicos, a fim de comutar a pena de morte. Mas Sócrates não quer tirar partido desta oportunidade. Considera-se inocente, e par conseguinte não preconiza nenhuma pena, não deixando outra escolha ao júri, obrigado a condená-lo a morte. Preservando a sua integridade, prefere a morte, deixando os juízes entregues a sua consciência.

A sua primeira crise levou-o ao exame de consciência, o segundo ao diálogo como via de purificação da ignorância, e o terceiro a morrer por Atenas e pela Verdade. Como Sócrates demonstrou, aquilo que buscamos, a vida nos oferece e nos cobra o preço. Algumas vezes a coragem de Ser nos custa caro, custa a própria vida.

A crise nos empurra para frente. Do grego antigo krinein, a crise é a ação de separar ou decidir e também pode referir-se a algo que se quebra. Nossa condição humana é a de um ser em permanente crise, pois a necessidade de transformação, de se reinventar, de se renovar obriga à passagem do estado de crise. Momentos de crise clama-se por reflexão, reforça-se nossos valores, clarifica nosso sentido da nossa vida. A saída deve ser para dentro e para cima. Para dentro de si mesmo e para algo mais elevado da nossa condição humana.

Fontes: http://www.administradores.com.br/artigos/carreira/ate-socrates-foi-afetado-pela-crise/98346/

28/07/2016

Sabia que Buda, Pitágoras, Sun Tzu e Leónidas viveram juntos?

Mapa interativo mostra personalidades que foram contemporâneas em vários campos do conhecimento


Enquanto Galileu Galilei observava o cosmo na Itália, William Shakespeare era um dramaturgo em atividade na Inglaterra. Enquanto isso, Caravaggio, pintor que apresentava à sociedade italiana uma arte obscura e nova. Ao mesmo tempo, Miguel de Cervantes esmiuçava as aventuras Dom Quixote, na Espanha. Eles não eram amigos, e muitos nem sabiam da existência uns dos outros, mas todos viveram ao mesmo tempo.

O Map of Contemporaries mostra quais grandes personalidades dividiram o mesmo período na Terra - muitas das vezes, sem nunca terem ouvido falar uma das outras. Por meio de uma interface simples e horizontal, é possível filtrar resultados por região e campo do conhecimento para traçar uma linha do tempo única. Com um clique, o mapa te leva à página da Wikipédia de cada personalidade histórica.

Em algum momento, Buda, o matemático Pitágoras, o filósofo Confúcio, o general Sun Tzu (autor de de A Arte da Guerra) e o espartano Leonidas viveram ao mesmo tempo. Milhares de anos depois, Karl Marx, Charles Darwin e Vicent Van Gogh partilharam décadas do século 19.

A linha do tempo criada pelo site utiliza o banco de dados do Panteon, um projeto de gráficos interativos desenvolvido por uma equipe do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets, EUA). Segundo Yuriy Bogdanov, programador e criador do Map of Contemporaries, a disposição horizontal da História é capaz de criar linhas do tempo imersivas, gerando perspectivas inteiramente novas sobre a História. O objetivo é que a proposta se torne colaborativa e a lista receba ainda mais nomes de notáveis.

Uma breve história da filosofia

Conheça aqui as principais épocas e os mais importantes pensadores de cada escola dos últimos 2700 anos, para você nunca mais confundir.


A filosofia não nasceu na Grécia. A terra natal de Tales, considerado o primeiro filósofo da história, é Mileto, cidade do sul da Jónia, região que hoje pertence à Turquia. Ou seja, é correto dizer que a filosofia nasceu no mundo grego, mas o mundo grego dos séculos 7 e 5 a.C. não tem nada a ver com a Grécia de hoje. Abrangia a costa do Mar Egeu, de Mármara e boa parte do Mar Negro, além do sul da Itália e das regiões costeiras da França, Espanha e África. Demorou quase cem anos para a filosofia chegar à capital Atenas, onde viveu Sócrates, uma espécie de Jesus Cristo da filosofia.

Motivo: assim como o calendário está dividido em antes e depois do surgimento do messias cristão, a filosofia também tem duas eras: pré e pós-Sócrates. Na era pré-socrática, a principal preocupação era saber de que era feito o mundo e o ser humano. A pergunta "de que são feitas as coisas?" pode soar ingênua e até infantil. Mas o filósofo Timothy Williamson, de Oxford, considera uma das melhores perguntas já proferidas - uma questão que nos conduziu a boa parte da ciência moderna. Pela primeira vez na história, os pensadores colocaram o raciocínio na frente da mitologia. Eles não engoliam a ideia de que o mundo surgira do nada. "Nada vem do nada e nada volta ao nada" era uma premissa básica para os pré-socráticos, o que significava dizer que o mundo é uma eterna reciclagem, tudo se transforma sem jamais desaparecer. Eles tinham até uma palavra para esse mundo perene: physis, do verbo grego "fazer surgir". Physis era a origem de todos os seres e coisas mortais do mundo, que estão em permanente transformação. O café quente esfria, o inverno vira primavera, o longe fica perto se formos até ele, a criança cresce e vira um adulto. A natureza está em constante transformação, mas isso não quer dizer que ela é caótica. As mudanças seguem uma lógica determinada pela physis.

Mas afinal o que era a physis? Cada pensador achava que era uma coisa. Tales afirmava que o princípio era a água ou o úmido. Anaximandro, oinfinito. Anaxímenes, o ar. Pode parecer simplório, mas era a primeira vez que se buscava uma resposta racional para a origem do mundo.
Conheça os pensadores da Era Pré-Socrática









07/03/2015

O alemão que amava os gregos e o Sul



Quando começou esta telenovela acerca da opção quase doentia de amor-ódio entre o "je suis Syriza" e o "je suis Merkel", e do suposto antagonismo entre os países do Norte e do Sul, passou na televisão a recordação de um jogo de futebol genial que os Monty Python montaram, há muitos anos, entre os filósofos alemães (Kant, Hegel, etc.), incluindo os escritores, e os filósofos gregos antigos, incluindo os cientistas (Aristóteles, Arquimedes, etc.). Na altura, ganharam os gregos, mas isso não é relevante. O importante é que o confronto retratava, na paródia, dois mundos gigantescos da filosofia ocidental. Ia mesmo a dizer "os" dois mundos, mas arrependi-me a tempo, por me lembrar de uma França que perdurou - em alternativa digna - das "luzes" até meados do século XX.

Há alguns dias, fui pressionado pelo meu filho mais novo a repegar no "Ecce Homo" do Nietzsche. Digo repegar por vergonha, pois acho que, se o li - e acho que sim -, nunca o devo ter feito com a atenção devida. Mas nunca é tarde para emendar os erros passados, e o livro apresenta um interesse inesperado perante a turbulência da nossa Europa contemporânea.

Nietzsche é um filósofo incompreendido e mal-amado. Em parte, por culpa sua. Mas suscita um paradoxo curiosíssimo: muitas almas-penadas do pensar continuam a associá-lo ao germanismo nacionalista, ou mesmo ao nazismo, quando a maior paixão do homem foram os gregos mais antigos e, posteriormente, os franceses menos antigos. É que mesmo muitos dos que reconhecem que a sua proximidade ao embrião do nazismo é ficcionada e tem mão criminosa - ninguém tem culpa das irmãs que tem -, tendem a identificá-lo com um "modelo alemão" que lhe é totalmente estranho, a não ser por pertencer a um monumento filosófico que, temos de reconhecer, foi quase um "assunto alemão" durante vários séculos.

Mas, lendo o "Ecce Homo", encontramos preciosidades destas:
"Quando para mim imagino uma espécie de homem, que se contrapõe a todos os meus instintos, é sempre um alemão que me ocorre."
"Sou estranho a tudo o que é alemão, de modo que já a proximidade de um alemão atrasa a minha digestão..."
"O que é que eu nunca perdoei a Wagner? Que ele condescendesse com os alemães - que se tornasse um alemão imperial... Onde quer que a Alemanha chegue, corrompe a cultura."

Em contrapartida, diz dos franceses o seguinte:
"... é a um pequeno número de velhos franceses que estou sempre a regressar: creio só na cultura francesa e tenho por equívoco tudo o que na Europa se chama "cultura"..."
"Voltaire, em oposição a todos os que depois dele escreveram, é acima de tudo um grand seigneur do espírito: exactamente o que eu também sou."

Mas o seu maior amor foi grego. Nietzsche dedicou-se à Filologia Clássica, antes de ser filósofo. Quer dizer que se dedicou aos textos clássicos, sobretudo os gregos, e os seus dois primeiros livros foram sobre a Grécia antiga. Foi no primeiro, "A origem da tragédia", que criou o célebre conceito de espírito "dionisíaco", que esteve na base de toda a sua compreensão do mundo grego - questionando com violência o racionalismo "socrático" e as tragédias de Eurípedes -, e o acompanhou pela vida fora, como símbolo da vontade de viver e do "dizer sim à própria vida, mesmo nos seus mais estranhos e mais duros problemas", até aos derradeiros anos de suposta loucura, quando assinava as cartas com o nome do deus da sua devoção - Dionysos.

E é assim que, neste livro do que consideram ser o "ideal-tipo" germânico, aparece a sua paixão pelo Sul, e uma das suas frases mais belas:

"Não sei estabelecer diferença alguma entre as lágrimas e a música, não sei pensar a felicidade, o Sul, sem um frémito de temor."

Nietzsche morreu há cento e poucos anos. Se eu tivesse de defini-lo, diria que foi, de entre todos os homens que já viveram, o homem que pensou maior, de forma mais ampla. O mundo que imaginou foi o mais desmesurado que alguma vez existiu. Mesmo o seu Homem foi o mais "além", o mais "elevado" dos homens ("übermensch"). O que, no caso dele, não tem nada a ver com divindades, como todos sabemos. Ora, entristece-me constatar que um século e pouco foi tempo suficiente para este elo grandioso entre o pensamento do Norte e do Sul se partir. Alguém se entreteve a estragar esta harmonia. Não sei por que foi, ou o que aconteceu. Imagino, talvez, a pequenez. Da preguiça ou do poder mundano. Não sei. Mas houve algo que, tristemente, abafou uma hipótese de sintonia espiritual, uma espécie de comunhão superior, que poderia ter perdurado entre os três povos maiores da filosofia ocidental e, por arrasto, ter espalhado a sua grandeza inigualável por todo o espaço europeu.

26/02/2015

O que é a verdadeira felicidade?

Google Imagens
Aristóteles 384 a.C. - 322 a.C.

A felicidade é um dos maiores e mais antigos anseios da humanidade. Todos a buscam em prosa e verso. Em nome dela se trapaceia, se rouba, se mata, se trai, se corrompe, se prostitui, por outro lado em sua busca se desenvolve, se cresce, se morre de trabalhar, se aperfeiçoa, se capacita, se agiganta.
Por isso, a felicidade é tema de livros, músicas, artes cênicas, filmes, novelas. Mas existe uma pergunta que já ocupou a cabeça de grandes pensadores como Aristóteles, Sócrates, Platão e outros: o que é a verdadeira felicidade?
Buscando textos aqui e ali, caiu-me nas mãos um artigo do professor Nigel Warburton do seu livro “Uma breve história da Filosofia”, que além de responder diretamente a essa questão, é uma excelente aula de Filosofia.
Esse belo artigo será o primeiro a ser utilizado nos treinamentos de interpretação de textos que faremos nesse semestre, com vistas à preparação dos nossos alunos para o exame do ENADE que acontecerá em Novembro próximo. Vamos ao artigo:
No livro de Aristóteles chamado Nicómaco que foi escrito para homenagear seu filho Nicômaco, encontra-se a famosa frase: “Uma andorinha só não faz verão.”. Aristóteles queria dizer que para se ter certeza de que o verão começou é preciso mais de uma andorinha voando ou mais de um dia quente, do mesmo modo que pequenos prazeres não correspondem a verdadeira felicidade.
Para Aristóteles felicidade não passava de alegria momentânea e ele acreditava que as crianças não podiam ser felizes. Ora, se as crianças não podem ser felizes, quem pode?
A visão de felicidade de Aristóteles era diferente da nossa para se ter felicidade é necessário uma vida longa, que as crianças ainda não tiveram.
Platão foi professor de Aristóteles e Sócrates foi professor de Platão. Sócrates-Platão-Aristóteles, esses três grandes pensadores, formam uma corrente.
Apresar de todos terem um professor que lhes serviu de inspiração para a genialidade, as ideias desses três são bem diferentes: Sócrates foi um excelente dialogador; Platão foi um grande escritor e Aristóteles interessou-se por tudo.
Todos os escritos de Aristóteles que sobreviveram tem a forma de anotações de aulas, possivelmente, anotações das aulas de Platão, seu professor.
Esses registros de suas anotações ainda exercem impacto gigantesco na filosofia ocidental. Aristóteles não foi apenas filósofo, mas se interessava também por zoologia, astronomia, história, política e drama.
Aristóteles nasceu na Macedónia em 384 a.C. Foi aluno de Platão, trabalhou como tutor de Alexandre, o Grande e fundou a própria escola em Atenas chamada Liceu, simplesmente um dos mais famosos centros de ensino do mundo antigo, equivalente às universidades de hoje.
Aristóteles mandava os pesquisadores do Liceu pesquisarem assuntos como política e biologia pelo mundo afora
Já Platão, contentou-se em filosofar de dentro de um gabinete. Aristóteles queria explorar a realidade. Ele rejeitou a teoria das formas de seu professor por acreditar que a maneira de entender a categoria geral das coisas era examinando os seus exemplares particulares. Assim, para entender o que é um gato, precisaríamos observar gatos reais, e não pensar abstratamente na forma de um gato.
Aristóteles refletiu muito sobre “Como devemos viver?” Sócrates e Platão também já havia feito essa pergunta. A busca dessa resposta é o que leva as pessoas à Filosofia pela primeira vez. A resposta que Aristóteles adotou era bem simples: “Buscando a felicidade.”

22/02/2015

Por que ler Platão?

Platão é um dos maiores pensadores da História da Grécia Antiga, onde suas obras alcançaram reconhecimento não somente entre os seus contemporâneos, mas de toda a tradição Ocidental, que o coloca entre os maiores pensadores da humanidade. Importância que não está apenas na originalidade de seu pensamento, mas sobretudo em uma filosofia que possibilitou luzes para os críticos problemas de sua época, a saber, a política, as Leis da cidade-estado e a educação.

Várias razões justifica uma assídua leitura da obra platônica. A primeira é que ao pensar nos problemas contraditórios de sua época, ele ofereceu elementos teóricos que foram capazes de se estabelecerem muito além do seu tempo, chegando a um reconhecimento até mesmo em nossos dias. Uma diversidade incrível de temas e reflexões faz de Platão um dos filósofos com maior densidade e profundeza, sobretudo em temas específicos como a política e a educação. Motivo este que o torna célebre entre historiadores e filósofos. A segunda, é que a originalidade da filosofia de Platão e sua proposta pedagógica fazem dele criador de uma nova Paidéia.

A educação em Platão tem alcance universal seja qual for a realidade ou qualquer campo de atividade humana, despertando no homem um amor pelo conhecimento, um amor pelo saber e, sobretudo instigando-o a buscá-lo fora da caverna. Este saber apresenta-se como aquele que está em busca de conhecimento em suas causas primeiras, ou seja, aquele saber que gera outros saberes servindo como matéria prima para os demais. Em Platão, a parte essencial e fundante do saber filosófico é caracterizado pelo ato de indagar sobre o mundo e as coisas. O porquê de tudo, enquanto realidade construída pelo homem ou até mesmo modificada por ele.
Poderíamos dizer que a prática do filosofar, seria a aproximação metafórica do corpo-a-corpo com o mundo, numa tentativa de contemplá-las, compreende-las e explica-las, sempre a partir de categorias racionais e indutivas, em busca de uma análise conceitual que satisfaça ás indagações previamente elaboradas.

O saber filosófico produzido na Antiguidade tem se apresentado durante séculos como um saber grávido de representatividade conceitual e que traz uma enorme credibilidade, seja pelos fantásticos sistemas filosóficos construídos, seja pela seriedade da análise empregada. O conhecimento filosófico da Antiguidade Ocidental trás em si a superação da ideia de passado como esquecimento. O passado mostra-se vivo e atuante em nossa cultura contemporânea, dada as suas concepções representacionais ainda em vigor em nossos dias.

Investigar o conceito de educação na Alegoria da Caverna de Platão torna-se um fundamental objeto de estudo como caminho de busca, na ânsia de encontrar em suas construções filosóficas uma possibilidade de compreensão para o hoje. Assumir o desafio de entrar na intimidade de sua Caverna, em meio á escuridão, na tentativa de encontrar ali a luz da verdade das coisas. Trazendo em nós a certeza da validade do pensamento filosófico de Platão e de seus conhecimentos sistemáticos, que para nós sempre se apresenta como plausível, tornando-se importante pensa-lo sempre quando necessário.

No pensamento platônico, está a base sobre a qual se levantou aquilo que nós chamamos de cultura ocidental, sobretudo no campo da educação em seus conceitos e paradigmas basilares. De acordo com José Trindade Santos, um os grandes estudiosos da filosofia platônica: “A noção de conhecimento como relação entre um sujeito, fixada pelos filósofos dos séculos XVII e XVIII, mergulha as suas raízes na tradição da filosofia clássica, na recepção crítica de Parmênides por Platão e Aristóteles”.

Porque é importante ler Platão? Primeiro porque ele foi o primeiro filósofo do ocidente. Pode-se conferir a ele esse título basicamente por três razões: Primeiro, por ter sido aquele que trabalhou e resolveu os problemas tradicionalmente considerados “filosóficos”. Segundo, ele foi o grande contribuidor para a construção do currículo das disciplinas constitutivas da filosofia: Lógica, Epistemologia, Ética, Política, Ontologia, Antropologia) e terceiro, por ter obrigado a comunidade em que viveu a reconhecer a sua atividade como pensador no interior da Academia da qual foi fundador. 

Fontes: http://www.diariodosertao.com.br/artigos/coluna/damiao-fernandes/educacao/por-que-ler-platao%3F/20150220233742

03/02/2015

Artistas e filósofos; estética e filosofia

O filósofo vienense Ludwig Wittgenstein nutria a firme convicção de que a arte era um meio possível de encontrar a solução para os diversos conflitos que cercavam a vida humana. De acordo com ele, a arte em geral poderia conduzir a vida a um fim positivo, no sentido de uma satisfação ou uma liberdade. A liberdade e a paz resultantes da música e do poema não são um estado meramente psicológico, mas um sentimento de admiração e de respeito para com a linguagem poética e a expressão musical. É assim com a atividade estética, assim deve ser com a atividade filosófica.

Ao aplicar o modo eficaz de investigação estética na investigação filosófica, o resultado será a cura da doença da qual muito tempo padece a própria filosofia. Trata-se da pretensão wittgensteiniana de “terminar” com a filosofia, de encontrar as terapias adequadas para solucionar a enfermidade, para dissolver todos os problemas (filosóficos e existenciais) que afligem os filósofos.

Existem diversas terapias e, ao fazer uso da terapia adequada, o resultado será a superação dos problemas – consequentemente, a tão desejada paz filosófica será alcançada. Trata-se do regresso ao cotidiano, onde a vida de fato acontece; trata-se da redescoberta das palavras e do seu devido uso, o qual Wittgenstein compara com a imagem de um homem que estava perdido e reencontra o caminho de retorno a casa.

É no cotidiano, na dimensão mais ordinária da vida, entendido como lugar onde as experiências ocorrem, que se encontra a solução para os problemas existenciais e filosóficos, e por isso Wittgenstein afirma em Cultura e Valor que a filosofia não pode ser uma ciência, mas ela é como a arquitetura e só deveria ser poesia. Os problemas de filosofia nascem justamente com o espanto dos filósofos diante do esplendor da vida, e isso teoria nenhuma é capaz de curar.

Para concluir, Wittgenstein recorda que, em se tratando de filosofia, a paz nunca será duradoura e, novamente, a atividade filosófica deve ser retomada. Desse modo podemos considerar que acabar com a filosofia é impossível, simplesmente porque é impossível acabar com os fenômenos que tocam a vida humana. A filosofia nasce desse embate entre a vida, o espanto e o desejo de comunicar. Isso se aplica a todas as pessoas que pensam, observam e se assombram, mas particularmente aos filósofos, poetas e artistas. Existe, portanto, um sentimento humano que sempre se faz ouvir, o qual não é possível silenciar e, ao dar ouvidos a esse sentimento que inflama o homem, a atividade filosófica precisa ser retomada – afinal, a filosofia é uma questão de sensibilidade, assim como a arte.

Edimar Brígido, escritor e professor universitário, é mestre e doutorando em Filosofia pela PUCPR.
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1529992&tit=Artistas-e-filosofos;-estetica-e-filosofia

26/01/2015

Manuel Maria Carrilho. Tão depressa ensaia o abraço como a retirada do tapete

O professor catedrático acumula no currículo obras, conferências e ainda um sem-fim de polémicas, capazes de incendiar até os espíritos mais fleumáticos
Chegavam da solene Lamego, em 1966, os "primeiros contactos com a filosofia" - " meses que me mudaram muito", recorda o ex-ministro da Cultura do governo de António Guterres em 2012, quando regressa à cidade para apresentar "Pensar o Mundo", obra que reúne em sequência cronológica os 20 livros que publicou ao longo de três décadas (1982-2012).
O filho de um antigo governador civil de Viseu no tempo da ditadura, nascido em Coimbra em 1951, onde conclui os estudos liceais aos 18 anos, não esquece a "curta estada" no Colégio Beneditino, motivada por esse pai que desaprova a adesão de Manuel Maria aos grupos de contestação ao Estado Novo, o apego a publicações como "Geração de 60" e a leitura de libertários interditos sob o regime de Salazar. Carrilho, "o filósofo-rei da política lusitana?", interroga-se sem grandes dúvidas a "Philosophie Mag" em artigo que lhe dedica em 2007. Priva com os escritos desses incómodos Sartre, Deleuze, Foucault e Louis Althusser. Uma referência que por estes dias não despista subtis comparações evocadas pelos mais atentos teóricos na internet - Althusser, o respeitado pensador do marxismo francês, e o cidadão comum que a 16 de Novembro de 1980 estrangulou até à morte a mulher, Hélène Rytmann.
"É preciso agir como homem de pensamento e pensar como homem de acção." A máxima de Henri Bergson, a trave-mestra do período em que institucionalizou e tutelou a pasta da Cultura (entre Outubro de 1995 e Julho de 2000), é, segundo a mesma "Philosophie", do dandy Carrilho, investigador nas áreas da filosofia do conhecimento e das ciências, nas teorias da argumentação e da retórica e nos problemas de comunicação e de política.

20/01/2015

Daniel Innerarity "Vivemos em sociedades histéricas, epidémicas"

O filósofo afirma que o Podemos se posiciona como "uma marca" e vende aos eleitores a sua "virgindade política"
Filósofo, catedrático de Ciência Política, professor convidado em várias universidades - na Sorbonne e na London School of Economics, por exemplo - Daniel Innerarity é hoje um dos pensadores mais reconhecidos do mundo. Na semana passada, passou por Lisboa e falou com o i sobre os acontecimentos do momento: os atentados de Paris, as mudanças políticas na Europa e a crise económica. Nascido em Bilbao em 1959, Daniel Innerarity é muito crítico do fenómeno Podemos - o partido que neste momento lidera as intenções de voto em Espanha. Diz que o que o Podemos vende ao eleitorado é essencialmente a sua "virgindade política" e acredita que Pablo Iglésias vai decepcionar muito rapidamente. Daqui a três meses vai ser editado em Portugal o seu novo livro - "A Democracia do Conhecimento", em defesa de "uma sociedade inteligente" - onde Daniel Innerarity defende a urgência do conhecimento das humanidades. A crise não teria sido tão profunda se os economistas tivessem estudado também História e Ética, diz.

Vivemos num mundo que não conseguimos perceber. Precisamos de filósofos. Daniel Innerarity, ajude-nos a entender os atentados de Paris.

Precisamos de gente que nos ajude a viver em contextos onde há mais incerteza que em épocas passadas. Não é que nós, os filósofos, saibamos mais do que os outros...

Pensam mais... Onde estava quando foi o ataque ao "Charlie Hebdo"?

Estamos mais acostumados a mover-nos em situações de insegurança e com questões em que as certezas são escassas. No dia dos atentados de Paris eu estava em San Sebastián, onde trabalho, na fronteira com a França. Vivi muitos anos em França, é quase o meu segundo país, tenho lá muitos amigos, estive na Sorbonne. Eu diria que passada a efervescência do primeiro impacto - a contraposição simplificada que se fez entre "nós" e "eles", a "civilização" e "os muçulmanos" - temos de fazer uma certa reflexão e pensar que "nós" estamos bastante divididos. Em França há uma expressão que é o "rassemblement", o reunir-se, como aconteceu na manifestação do dia 11 de Janeiro. São momentos mágicos criados por uma emoção. Mas no dia seguinte temos de voltar às discussões sobre como equilibrar liberdade e segurança. Sobre a manifestação de Paris é possível dizer: "nem éramos todos os que estávamos nem estávamos todos os que éramos". Havia gente que não estava na manifestação - Le Pen e o seu partido e não vou agora entrar na discussão sobre de quem era a culpa - e certos líderes que estavam lá não eram apresentáveis. São companhias que eu não quero ter.

Está a falar de que companhias em concreto?

Ferramenta de Leitura do Mundo


Viviane Mosé, é a filósofa brasileira mais pop da atualidade

As ideias de filósofos como Sócrates, Locke, Hegel e Nietzsche estão mais próximas do cotidiano do que se pode imaginar. Antigas, mas nada antiquadas, elas têm o poder de suplantar as páginas dos livros para dialogar com a pós-modernidade. Mesmo que não pareça, as palavras dos grandes pensadores da humanidade têm muito a dizer para o atual tempo de crise, é o que garante Viviane Mosé, a filósofa brasileira mais pop da atualidade. 

Viviane, que no ano passado participou em Rio Preto da "Feira do Verbo", evento promovido pela escola "Maria Peregrina", é psicóloga e psicanalista, formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e doutora em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Viviane é conhecida por "traduzir" a linguagem filosófica para as massas. Professora há mais de 30 anos, atualmente, investe na área da Educação. 

A filósofa - que começou a ganhar projeção com o quadro "Ser ou não Ser", exibido pelo "Fantástico", da Rede Globo, em meados dos anos 2000 - afirma que, nesta época em que vivemos, marcada por incertezas, a humanidade se depara com um dos maiores desafios de sua história: a fragmentação. "A gente desagregou tanto no século 20 que tudo o que no século 21 chama para reunir ganha poder, ganha valor", afirma. Para Viviane, a Filosofia tem o poder de responder às dúvidas e mostrar novos caminhos a serem trilhados. "Quando a gente não tem certezas, é a melhor época para a Filosofia", afirma. 

10/01/2015

Como vender a Filosofia


Os Quatro Filósofos, de Rubens (Palazzo Pitti, Florença)
MARK VANHOENACKER. <I>EXCLUSIVO PÚBLICO/SLATE</I>/THE WASHINGTON POST 

Só precisa de um produto - experiências imaginárias, por exemplo - e um plano de marketing.

Só os mais valentes ficariam ao lado dos filósofos no fim da sua guerra de influências com os cientistas. Para o filósofo que fuma o seu cachimbo enquanto reflecte sobre questões complexas, começa a fazer-se tarde e o tweed pesa-lhe nos ombros. Os cientistas têm os edifícios espalhafatosos, as manchetes mais sensacionais e o crédito pelos "feitos intelectuais mais impressionantes" da nossa era. A National Science Foundation (Fundação Nacional de Ciência) tem um orçamento de sete mil milhões, enquanto a National Philosophy Foundation... - ups!, esperem, não existe nenhuma.
Os comentadores falam da "crescente crise na filosofia" e lamentam que, "dentro de algumas décadas, toda a disciplina possa estar ameaçada". O Centro Nacional de Estatísticas da Educação dá conta de uma queda de 20% nas licenciaturas de Filosofia e Religião entre 1970 e 2009. A parte mais cruel, dizem os filósofos: "Somos ignorados durante os jantares."
Amy Ferrer, directora executiva da Associação Americana de Filósofos, enumera razões para o cepticismo em relação aos números da queda de licenciaturas em Filosofia. Mas reconhece que na origem de "qualquer percepção de crise" estão "impressões enganadoras sobre o valor e a utilidade da Filosofia". No vocabulário das relações públicas, a percepção de crise é uma crise.
Claro que os problemas de relações públicas da Filosofia não são nada de novo - veja-se Sócrates e a sua execução. Mas, na verdade, nada diz tão claramente "nós levamos-te a sério!" como um copo de cicuta. Cerca de 24 séculos depois, foi fácil para um crítico do New York Times concluir que "a Filosofia académica nos EUA deixou praticamente de tentar comunicar para a cultura em geral".

09/01/2015

Descartes: A razão acima de tudo

O filósofo diz: “Penso, logo existo” e lança as bases da grande revolução no conhecimento.

por Jaime Klintowitz

O rigoroso inverno de 1619 imobilizou o exército de Maximiliano da Baviera. Um percalço militar irrelevante para o desfecho da Guerra dos Trinta Anos, que ensangüentaria a Europa, mas que teve inesperada e decisiva importância para a Filosofia e a ciência moderna. René Descartes, jovem francês de 23 anos engajado nas tropas bávaras, aproveitou o frio para se isolar em um quarto de estalagem nas cercanias de Ulm, na Alemanha, e - como era de seu gosto - passar dias em febril atividade intelectual. Na madrugada gelada de 11 de novembro, as centelhas de seu cérebro explodiram em sonhos agitados - em um deles, o Espírito da Verdade lhe abria os tesouros da Ciência. Na manhã seguinte, superexcitado, Descartes concluiu estar no limiar de uma “ciência admirável".

"Penso, logo existo", sua máxima mais conhecida e que viria a ser a viga de sustentação do racionalismo moderno começou a nascer naquelas horas. Nas imagens dos sonhos, o jovem pretendeu ver símbolos de iluminação e indicadores da missão a que deveria consagrar sua vida: unificar todos os conhecimentos humanos sobre bases racionais. Foi ali, ao pé de uma estufa a carvão, a espada inútil encostada à parede, que Descartes pela primeira vez teve a idéia de aplicar a álgebra à geometria e a Matemática a todas as coisas. Ele desempenhou com tamanha habilidade a tarefa de dar novos alicerces ao edifício do pensamento que passou à História como o "pai da Filosofia moderna", cuja obra é o ponto de partida obrigatório para se entender as origens do modo de pensar que tornaria possíveis as revoluções científicas dos séculos seguintes.