Mostrar mensagens com a etiqueta Filosofando. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filosofando. Mostrar todas as mensagens

22/09/2016

Até Sócrates foi afetado pela crise


De fato, este tema excita o interesse de todos, ainda mais a esse estado económico que nosso país (Brasil) está passando. Semana passada dei uma palestra na 3ª Feira de Empregabilidade e Empreendedorismo da Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (FADERGS), o tema era sobre a importância dos valores em tempos de crise. Ao ler a ficha de inscrição dos participantes, colocamos algumas questões e uma delas questionava o interesse deles de estar na palestra. A maioria queria uma resposta sobre a crise ou mais conhecimento. Compartilho contigo uma reflexão sobre o tema. Em qual momento de nossas vidas não passamos por uma crise? Todos dias, algumas mais suportáveis, outras nos tiram o chão. Grandes personagens históricas também passaram, passam e passarão por momentos de crise.

Você, caro leitor, sabia que até Sócrates foi afetado pela crise. Curioso?

Fernando Schwarz no livro “Sabedoria de Sócrates” traz uma das mais brilhantes leituras de Sócrates, da sua missão filosófica, a dialética, caminho da felicidade, pedagogia, amor e as crises que o grande filósofo grego passou. Sim, ele passou por três grandes crises que quase o tiraram do seu protagonismo histórico. Vale muito a pena relatar de forma resumida, pois é um ensinamento para nossas vidas.

A primeira crise foi de romper com seu discípulo Alcebíades, um general ateniense que seria o sucessor de Péricles. Alcebíades preferiu uma vida de aparências, atividade guerreira, competição, jogo, prazeres, valorização social e poder do que uma vida guiada pela virtude. Sócrates via o potencial que tinha seu discípulo e seu fracasso o fez compreender que a virtude não se transmite, que cada um deve procurar por si, que ninguém pode vivê-la no lugar do outro. Não se pode ajudar alguém que não quer ajudar-se a si próprio. A humildade se fortalece no coração do filósofo e embarcar na missão de despertar a consciência dos homens, principalmente dos jovens. E não de alguém que é especial.

A segunda crise foi dez anos depois quando seu amigo Querefonte foi ao Oráculo de Apolo, em Delfos, questionar quem era o homem mais sábio de Atenas. Teve a famosa resposta: Sábio é Sófocles, mais sábio é Eurípides, de todos os homens o mais sábio é Sócrates. Ao saber disso Sócrates crava na história da filosofia uma das mais célebres frases: só sei que nada sei. Com isso, vive um novo acesso de depressão, a segunda crise, sem nada compreender do que lhe está a acontecer. Rejeita o que disse o Oráculo e mergulha em longo silêncio. Rompe esse estado querendo provar o erro da sentença e vai à busca dos sábios. Interroga-os aqueles que dominam as diversas disciplinas, porém leva-os, aos poucos, a duvidar da sua própria sabedoria, demonstrando-lhes que na realidade eles ignoram o que pensavam conhecer. Anos depois, ele compreende o ensinamento deixado pelo Oráculo, que a sabedoria consiste em saber que é ignorante. Isso abre a possibilidade para o aperfeiçoamento, conhecendo nossa ignorância.

A terceira crise foi confrontar-se com a própria essência do seu ensinamento. Muito bem exposta na Apologia de Sócrates, quando é acusado: por corromper os jovens, recusa dos deuses tradicionais e criação de novos deuses. Sócrates lutava contra o sistema da paixão corrupção e burocracia que impedia o verdadeiro desenvolvimento dos cidadãos livres e iguais face à lei. Fora isso, também combatia a superstição e não a religião. Condenou a tradição da mitologia grega que antropomorfizava os deuses apresentando-os como seres sujeitos às paixões e destruindo-se entre si. E o novo deus, o daimon, é consciência individual, fundamento da liberdade interior e da dignidade humana. Acabou sendo condenado à morte pelo júri por 281 votos contra 220 por não querer negar seu posicionamento filosófico.

Segundo a tradição ateniense, a lei não fixa a pena, mas uma segunda votação permitia escolher entre as que propõe a acusação por um lado e a defesa par outro. O júri pode escolher uma ou outra. Como a acusação já pediu a pena de morte, cabe a defesa propor uma sanção que pode ser o exílio ou a perda dos direitos cívicos, a fim de comutar a pena de morte. Mas Sócrates não quer tirar partido desta oportunidade. Considera-se inocente, e par conseguinte não preconiza nenhuma pena, não deixando outra escolha ao júri, obrigado a condená-lo a morte. Preservando a sua integridade, prefere a morte, deixando os juízes entregues a sua consciência.

A sua primeira crise levou-o ao exame de consciência, o segundo ao diálogo como via de purificação da ignorância, e o terceiro a morrer por Atenas e pela Verdade. Como Sócrates demonstrou, aquilo que buscamos, a vida nos oferece e nos cobra o preço. Algumas vezes a coragem de Ser nos custa caro, custa a própria vida.

A crise nos empurra para frente. Do grego antigo krinein, a crise é a ação de separar ou decidir e também pode referir-se a algo que se quebra. Nossa condição humana é a de um ser em permanente crise, pois a necessidade de transformação, de se reinventar, de se renovar obriga à passagem do estado de crise. Momentos de crise clama-se por reflexão, reforça-se nossos valores, clarifica nosso sentido da nossa vida. A saída deve ser para dentro e para cima. Para dentro de si mesmo e para algo mais elevado da nossa condição humana.

Fontes: http://www.administradores.com.br/artigos/carreira/ate-socrates-foi-afetado-pela-crise/98346/

25/07/2016

O divórcio entre ciência e filosofia

O cientificismo positivista é uma filosofia geral, que afirma que o “ser” das coisas reais corresponde a seus aspectos mensuráveis. Mas, filosoficamente, isso é sustentável?

Filosofia e ciência são sinónimos na Grécia Antiga, significando a epistéme, saber rigoroso, lógico-conceitual, em contraposição à “opinião” irrefletida, fruto da impressão subjetiva. Este saber se caracteriza pela oferta de razões acessíveis, em princípio, a todos (que estejam dispostos a investigar seriamente a realidade), não se baseando mais, como no mito, na autoridade do poeta ou do sacerdote, mas naquela da inteligência.

Aristóteles distinguiu entre a “filosofia primeira” (“metafísica” ou “ontologia”), que estuda os princípios gerais da realidade, e as “filosofias segundas” (que dariam nas nossas ciências empíricas), que estudam os diversos setores da realidade: a psicologia, a matemática, a física, a biologia etc.

Realidades como o amor e a liberdade podem ser investigadas ou decididas apenas do ponto de vista da ciência empírica?

Nos séculos 13 e 14, na Universidade de Oxford, começa-se a valorizar o conhecimento experimental, e a filosofia nominalista abandona a metafísica das “essências universais”, passando o “conceito” a ser símbolo lógico de realidades singulares semelhantes, preparando-se, assim, o pensamento matematizante cujo marco seria, no século 17, a teoria heliocêntrica de Kepler, e que teria seu paradigma nos Princípios Matemáticos da Filosofia Natural de Newton.

No século 19, a filosofia positivista estabeleceu que apenas o conhecimento matemático-experimental é verdadeiro, e que a metafísica não teria valor cognoscitivo. A filosofia passa a ser, então (na realidade, desde Kant, no século 18), mera teoria da nuova Scienza, sem um objeto próprio.

O objeto da filosofia, enquanto “ontologia”, deixou de existir? O cientificismo positivista é uma filosofia geral, que afirma que o “ser” das coisas reais corresponde a seus aspectos mensuráveis. Mas, filosoficamente, isso é sustentável? Realidades como o amor, a liberdade, a moralidade do aborto, a inteligência etc. podem ser investigadas ou decididas apenas do ponto de vista da ciência empírica?

Quando isso ocorre, o resultado é, por exemplo, a aplicação da estatística aos problemas éticos: “válido” passa a ser “o que se faz”, e não “o que deve ser feito”; assim, já que, de qualquer forma, aborta-se, as vidas em jogo (das mães e dos bebês) passam a ser uma questão “quantitativa”, de “saúde pública” (cada vida humana inocente já não tem mais uma dignidade infinita). Em outro exemplo, o problema da consciência, que na filosofia tem um tratamento riquíssimo, é reduzido aos aspectos físico-químicos dos atos conscientes; ignora-se a diferença entre os aspectos empíricos da consciência, como as qualidades sentidas, e o seu caráter “real” inteligível, como se a intelecção fosse mera computação de dados sensíveis, e não a percepção das imagens configurando – na própria sensação – um “algo” que excede aqueles dados e que não se reduz a estímulo para uma resposta animal; percepção sem a qual a liberdade humana seria uma ilusão, pois estaríamos totalmente determinados pelas leis da natureza.

É preciso encontrar um link entre ontologia e ciência. Esta não pode pretender captar absolutamente a realidade, que não se reduz à “extensão” (mesmo porque isso já seria uma tese filosófica), e a filosofia não pode prescindir dos conteúdos e problemas das ciências, que lhe subministram, além da experiência humana ordinária, base empírica para uma especulação metafísica mais rigorosa.

Joathas Soares Bello, doutor em Filosofia pela Universidade de Navarra, é professor da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, do Instituto Filosófico e Teológico da Arquidiocese de Niterói, do Seminário da Diocese de Nova Friburgo e da Faetec-RJ.

Fontes: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/odivorcio-entre-ciencia-e-filosofia-eu1gmql04wre0goy2f9uxtf2x

22/03/2016

9 dicas de filósofos gregos para relacionamentos

PLUTARCO COMPARAVA HOMENS A ANIMAIS, MESMO QUANDO APAIXONADOS (FOTO: WIKICOMMONS / GALILEU)

Os antigos pensadores gregos não refletiam apenas sobre morte, política e natureza. Na verdade, alguns deles tem considerações bastante interessantes (quando não são apenas absurdas ou divertidas) sobre relacionamentos. O site Mental Floss listou nove conselhos de sábios sobre relações amorosas e casamento. Em vez de um guia para o amor, essas dicas revelam muito sobre como pensavam os antigos sobre seus relacionamentos e o papel da mulher, tão diferente hoje em dia. Confira:

1. Aceite as picuinhas da pessoa amada. 

Na Moralia, uma coleção de ensaios e discursos de Plutarco, o filósofo dá uma dica para seus amigos recém-casados. O texto se assimila bastante a um discurso de casamento e é voltado especialmente à esposa. O grego explica que homens, assim como animais, são facilmente irritados por certos tipos de som ou cores – alguns homens "não podem aguentar a visão do vermelho ou do roxo". Cabe à esposa descobrir os incômodos do marido e evitá-los, para que vivam "em constante gentileza" um com o outro. 

2. Desafie seu amor para descobrir quem ama mais o outro. 

Caio Musónio Rufo, um filósofo estoico, fez uma série de discursos sobre a relação entre casamento e filosofia. Para Rufo, o casamento ideal é aquele em que o casal se desdobra em esforços para agradar e ser devoto ao outro. Se ambos os parceiros se comprometem com a ideia de agradar mais o outro, o resultado é uma união feliz, estável e "digna de inveja". Ser egoísta, por outro lado, é a fonte de todos os problemas: "quando cada um olha apenas para seus interesses e se esquece do outro... a união está fadada ao desastre", escreve o grego. 

3. Não use poções do amor para garantir um marido ou esposa.

O cinema e a literatura estão cheios de exemplos de pessoas que se dão mal ao tentarem conquistar a pessoa amada por meios, digamos, escusos. Plutarco, mais uma vez comparando homens a animais, faz uma analogia entre pesca e conseguir um marido: uma mulher que tenta conquistar um homem com poções, assim como uma pessoa que pesca usando veneno, tornando o peixe "impossível de comer", não consegue o que deseja. "Mulheres que usam poções do amor e feitiços em seus maridos [...] se descobrirão casadas com bobalhões". 

4. Se divirta com a pessoa amada, ou ela vai se divertir sem você. 

Plutaco acreditava que o casamento era uma união tão poderosa a ponto de transformar duas pessoas em uma só. Logo, é preciso passar tempo com o parceiro, para se divertir e rir junto com ele. Caso contrário, a diversão vai ser encontrada fora de casa. "Homens que não se divertem com suas esposas estão ensinando a elas que procurem seus próprios prazeres longe do marido", escreveu o grego. 

5. Sua sogra provavelmente será ciumenta. 

Pensou que essa era uma questão moderna? Que nada. Plutarco já previa possíveis episódios de ciúme e tem um conselho direto: é preciso ter cautela ao tratar de relacionamentos entre mãe e filho. "Um jeito de curar a hostilidade é criar afeição por ela, sem afetar o relacionamento da mãe com seu filho". 

6. Para um relacionamento funcionar, ambos devem ser pessoas bacanas. 

Rufo acredita que um relacionamento ideal envolve duas pessoas "virtuosas". O casamento simplesmente não funcionará se ambos forem "más" pessoas ou se apenas uma delas for boa. E o que é ser uma boa pessoa para o filósofo? "Ter auto-controle, justiça" e "respeitar o caráter e a alma". 

7. Não cometa adultério. 

Rufo, em seu ideal de casamento, repudiava a ideia de adultério, alegando que "ia contra a natureza e era algo do que se envergonhar". Ainda que reconheça que alguns de seus contemporâneos não pensassem da mesma maneira, em especial quando se tratava de sexo com escravas, o grego dizia que também era errado. "Se um homem acha que não é errado ter relações com sua própria escrava, especialmente se for solteira, pergunte a ele como seria se sua esposa tivesse relações com um escravo". 

8. Mas se seu marido trai você, é porque "respeita você demais". 

Plutarco já pensava diferente de Rufo. Ao contar uma história sobre reis persas que enviavam suas mulheres para longe quando queriam se embebedar e fazer sexo selvagem com concubinas, o filósofo os defendia, dizendo que os reis simplesmente não queriam sujeitar suas esposas a esses episódios lascivos. "As mulheres dos reis persas se sentam ao lado dos reis e comem com eles", explica Plutarco. "A esposa não deve se zangar ou ficar brava, e sim entender que o respeito do rei por ela o leva a dividir sua lascividade com outra mulher". Vale pensar se a regra também valia para as esposas... 

9. O tempo vai fortalecer a relação. 

Para Plutarco, as relações só ficam mais fortes com o passar do tempo. Ao dar um conselho para os recém-casados, o filósofo reforça que é preciso tomar cuidado com a discórdia, que pode enfraquecer a relação. Mas "depois de um tempo, quando estiverem realmente ligados, não podem ser separados nem por fogo nem por aço", reflete o grego.

Fontes: http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/03/9-dicas-filosofos-gregos-para-o-seu-relacionamento.html

07/03/2015

O alemão que amava os gregos e o Sul



Quando começou esta telenovela acerca da opção quase doentia de amor-ódio entre o "je suis Syriza" e o "je suis Merkel", e do suposto antagonismo entre os países do Norte e do Sul, passou na televisão a recordação de um jogo de futebol genial que os Monty Python montaram, há muitos anos, entre os filósofos alemães (Kant, Hegel, etc.), incluindo os escritores, e os filósofos gregos antigos, incluindo os cientistas (Aristóteles, Arquimedes, etc.). Na altura, ganharam os gregos, mas isso não é relevante. O importante é que o confronto retratava, na paródia, dois mundos gigantescos da filosofia ocidental. Ia mesmo a dizer "os" dois mundos, mas arrependi-me a tempo, por me lembrar de uma França que perdurou - em alternativa digna - das "luzes" até meados do século XX.

Há alguns dias, fui pressionado pelo meu filho mais novo a repegar no "Ecce Homo" do Nietzsche. Digo repegar por vergonha, pois acho que, se o li - e acho que sim -, nunca o devo ter feito com a atenção devida. Mas nunca é tarde para emendar os erros passados, e o livro apresenta um interesse inesperado perante a turbulência da nossa Europa contemporânea.

Nietzsche é um filósofo incompreendido e mal-amado. Em parte, por culpa sua. Mas suscita um paradoxo curiosíssimo: muitas almas-penadas do pensar continuam a associá-lo ao germanismo nacionalista, ou mesmo ao nazismo, quando a maior paixão do homem foram os gregos mais antigos e, posteriormente, os franceses menos antigos. É que mesmo muitos dos que reconhecem que a sua proximidade ao embrião do nazismo é ficcionada e tem mão criminosa - ninguém tem culpa das irmãs que tem -, tendem a identificá-lo com um "modelo alemão" que lhe é totalmente estranho, a não ser por pertencer a um monumento filosófico que, temos de reconhecer, foi quase um "assunto alemão" durante vários séculos.

Mas, lendo o "Ecce Homo", encontramos preciosidades destas:
"Quando para mim imagino uma espécie de homem, que se contrapõe a todos os meus instintos, é sempre um alemão que me ocorre."
"Sou estranho a tudo o que é alemão, de modo que já a proximidade de um alemão atrasa a minha digestão..."
"O que é que eu nunca perdoei a Wagner? Que ele condescendesse com os alemães - que se tornasse um alemão imperial... Onde quer que a Alemanha chegue, corrompe a cultura."

Em contrapartida, diz dos franceses o seguinte:
"... é a um pequeno número de velhos franceses que estou sempre a regressar: creio só na cultura francesa e tenho por equívoco tudo o que na Europa se chama "cultura"..."
"Voltaire, em oposição a todos os que depois dele escreveram, é acima de tudo um grand seigneur do espírito: exactamente o que eu também sou."

Mas o seu maior amor foi grego. Nietzsche dedicou-se à Filologia Clássica, antes de ser filósofo. Quer dizer que se dedicou aos textos clássicos, sobretudo os gregos, e os seus dois primeiros livros foram sobre a Grécia antiga. Foi no primeiro, "A origem da tragédia", que criou o célebre conceito de espírito "dionisíaco", que esteve na base de toda a sua compreensão do mundo grego - questionando com violência o racionalismo "socrático" e as tragédias de Eurípedes -, e o acompanhou pela vida fora, como símbolo da vontade de viver e do "dizer sim à própria vida, mesmo nos seus mais estranhos e mais duros problemas", até aos derradeiros anos de suposta loucura, quando assinava as cartas com o nome do deus da sua devoção - Dionysos.

E é assim que, neste livro do que consideram ser o "ideal-tipo" germânico, aparece a sua paixão pelo Sul, e uma das suas frases mais belas:

"Não sei estabelecer diferença alguma entre as lágrimas e a música, não sei pensar a felicidade, o Sul, sem um frémito de temor."

Nietzsche morreu há cento e poucos anos. Se eu tivesse de defini-lo, diria que foi, de entre todos os homens que já viveram, o homem que pensou maior, de forma mais ampla. O mundo que imaginou foi o mais desmesurado que alguma vez existiu. Mesmo o seu Homem foi o mais "além", o mais "elevado" dos homens ("übermensch"). O que, no caso dele, não tem nada a ver com divindades, como todos sabemos. Ora, entristece-me constatar que um século e pouco foi tempo suficiente para este elo grandioso entre o pensamento do Norte e do Sul se partir. Alguém se entreteve a estragar esta harmonia. Não sei por que foi, ou o que aconteceu. Imagino, talvez, a pequenez. Da preguiça ou do poder mundano. Não sei. Mas houve algo que, tristemente, abafou uma hipótese de sintonia espiritual, uma espécie de comunhão superior, que poderia ter perdurado entre os três povos maiores da filosofia ocidental e, por arrasto, ter espalhado a sua grandeza inigualável por todo o espaço europeu.

05/03/2015

O que é Filosofia?



Filosofia

É o ponto de encontro

É o encanto do espanto

É a admiração da vida

É a viagem somente de ida

É o difícil, é o complexo

É o fácil, é o reverso


Filosofia

É o nada sobre o tudo

É o tudo sobre o nada

É o amor pela sabedoria

É a reflexão do dia

É o prazer do questionamento

É a coruja de olhar sempre atento


Filosofia

É o início da ciência

É a crítica da consciência

É a pergunta em sua essência

É o filósofo que pensa

É o pensamento que voa

É o sentido da vida que nos atordoa
http://www.dm.com.br/opiniao/2015/03/o-que-e-filosofia.html

03/02/2015

Artistas e filósofos; estética e filosofia

O filósofo vienense Ludwig Wittgenstein nutria a firme convicção de que a arte era um meio possível de encontrar a solução para os diversos conflitos que cercavam a vida humana. De acordo com ele, a arte em geral poderia conduzir a vida a um fim positivo, no sentido de uma satisfação ou uma liberdade. A liberdade e a paz resultantes da música e do poema não são um estado meramente psicológico, mas um sentimento de admiração e de respeito para com a linguagem poética e a expressão musical. É assim com a atividade estética, assim deve ser com a atividade filosófica.

Ao aplicar o modo eficaz de investigação estética na investigação filosófica, o resultado será a cura da doença da qual muito tempo padece a própria filosofia. Trata-se da pretensão wittgensteiniana de “terminar” com a filosofia, de encontrar as terapias adequadas para solucionar a enfermidade, para dissolver todos os problemas (filosóficos e existenciais) que afligem os filósofos.

Existem diversas terapias e, ao fazer uso da terapia adequada, o resultado será a superação dos problemas – consequentemente, a tão desejada paz filosófica será alcançada. Trata-se do regresso ao cotidiano, onde a vida de fato acontece; trata-se da redescoberta das palavras e do seu devido uso, o qual Wittgenstein compara com a imagem de um homem que estava perdido e reencontra o caminho de retorno a casa.

É no cotidiano, na dimensão mais ordinária da vida, entendido como lugar onde as experiências ocorrem, que se encontra a solução para os problemas existenciais e filosóficos, e por isso Wittgenstein afirma em Cultura e Valor que a filosofia não pode ser uma ciência, mas ela é como a arquitetura e só deveria ser poesia. Os problemas de filosofia nascem justamente com o espanto dos filósofos diante do esplendor da vida, e isso teoria nenhuma é capaz de curar.

Para concluir, Wittgenstein recorda que, em se tratando de filosofia, a paz nunca será duradoura e, novamente, a atividade filosófica deve ser retomada. Desse modo podemos considerar que acabar com a filosofia é impossível, simplesmente porque é impossível acabar com os fenômenos que tocam a vida humana. A filosofia nasce desse embate entre a vida, o espanto e o desejo de comunicar. Isso se aplica a todas as pessoas que pensam, observam e se assombram, mas particularmente aos filósofos, poetas e artistas. Existe, portanto, um sentimento humano que sempre se faz ouvir, o qual não é possível silenciar e, ao dar ouvidos a esse sentimento que inflama o homem, a atividade filosófica precisa ser retomada – afinal, a filosofia é uma questão de sensibilidade, assim como a arte.

Edimar Brígido, escritor e professor universitário, é mestre e doutorando em Filosofia pela PUCPR.
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1529992&tit=Artistas-e-filosofos;-estetica-e-filosofia

26/01/2015

Religião para ateus

A intelectualidade do mundo Ocidental se alvoroça em análises aprofundadas sobre os antecedentes e consequentes da tragédia do Charlie Hebdo. Aproveita para criticar o papa Francisco porque concorda que é “normal” dar um soco em quem ousar ofender a mãe. O chefe da Igreja ainda puxa a orelha dos católicos que proliferam feito coelhos. Esquece-se que o clero insiste na arcaica “tabelinha do Vaticano”, de dias férteis e inférteis, com tantos métodos contraceptivos mais eficientes. No Brasil, o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, invoca o surrado “Deus é brasileiro” para resolver problemas da desídia do governo em planejar o suprimento da demanda de eletricidade. “Deus proverá”, mandando chuva e humidade para normalizar o nível das represas. “A César o que é de César”, disse Jesus, justamente para separar o que é de Deus dos aspectos políticos deste mundo. 
O filósofo francês André de Botton, escreveu um livro chamado Religião para Ateus (Ed. Intrínseca) onde essa postura é resumida num mote – “eu mesmo não acredito, mas, do ponto de vista político, é mais prudente que você acredite”. É desanimador saber que filósofos desde Maquiavel ao contemporâneo Habermas compartilham a descrença nos dogmas religiosos, mas, ainda assim, consideram que a religião é útil para manter sob controle o populacho. A meu ver, uma forma contraditória de pensar por aqueles que, enquanto filósofos, deveriam zelar pela integridade do intelecto. Outro filósofo, mais pé no chão, Jacques Derrida (1994) procura pôr ordem na casa ao discriminar religião e ética, erroneamente colocadas no mesmo pote. 

20/01/2015

Daniel Innerarity "Vivemos em sociedades histéricas, epidémicas"

O filósofo afirma que o Podemos se posiciona como "uma marca" e vende aos eleitores a sua "virgindade política"
Filósofo, catedrático de Ciência Política, professor convidado em várias universidades - na Sorbonne e na London School of Economics, por exemplo - Daniel Innerarity é hoje um dos pensadores mais reconhecidos do mundo. Na semana passada, passou por Lisboa e falou com o i sobre os acontecimentos do momento: os atentados de Paris, as mudanças políticas na Europa e a crise económica. Nascido em Bilbao em 1959, Daniel Innerarity é muito crítico do fenómeno Podemos - o partido que neste momento lidera as intenções de voto em Espanha. Diz que o que o Podemos vende ao eleitorado é essencialmente a sua "virgindade política" e acredita que Pablo Iglésias vai decepcionar muito rapidamente. Daqui a três meses vai ser editado em Portugal o seu novo livro - "A Democracia do Conhecimento", em defesa de "uma sociedade inteligente" - onde Daniel Innerarity defende a urgência do conhecimento das humanidades. A crise não teria sido tão profunda se os economistas tivessem estudado também História e Ética, diz.

Vivemos num mundo que não conseguimos perceber. Precisamos de filósofos. Daniel Innerarity, ajude-nos a entender os atentados de Paris.

Precisamos de gente que nos ajude a viver em contextos onde há mais incerteza que em épocas passadas. Não é que nós, os filósofos, saibamos mais do que os outros...

Pensam mais... Onde estava quando foi o ataque ao "Charlie Hebdo"?

Estamos mais acostumados a mover-nos em situações de insegurança e com questões em que as certezas são escassas. No dia dos atentados de Paris eu estava em San Sebastián, onde trabalho, na fronteira com a França. Vivi muitos anos em França, é quase o meu segundo país, tenho lá muitos amigos, estive na Sorbonne. Eu diria que passada a efervescência do primeiro impacto - a contraposição simplificada que se fez entre "nós" e "eles", a "civilização" e "os muçulmanos" - temos de fazer uma certa reflexão e pensar que "nós" estamos bastante divididos. Em França há uma expressão que é o "rassemblement", o reunir-se, como aconteceu na manifestação do dia 11 de Janeiro. São momentos mágicos criados por uma emoção. Mas no dia seguinte temos de voltar às discussões sobre como equilibrar liberdade e segurança. Sobre a manifestação de Paris é possível dizer: "nem éramos todos os que estávamos nem estávamos todos os que éramos". Havia gente que não estava na manifestação - Le Pen e o seu partido e não vou agora entrar na discussão sobre de quem era a culpa - e certos líderes que estavam lá não eram apresentáveis. São companhias que eu não quero ter.

Está a falar de que companhias em concreto?

Ferramenta de Leitura do Mundo


Viviane Mosé, é a filósofa brasileira mais pop da atualidade

As ideias de filósofos como Sócrates, Locke, Hegel e Nietzsche estão mais próximas do cotidiano do que se pode imaginar. Antigas, mas nada antiquadas, elas têm o poder de suplantar as páginas dos livros para dialogar com a pós-modernidade. Mesmo que não pareça, as palavras dos grandes pensadores da humanidade têm muito a dizer para o atual tempo de crise, é o que garante Viviane Mosé, a filósofa brasileira mais pop da atualidade. 

Viviane, que no ano passado participou em Rio Preto da "Feira do Verbo", evento promovido pela escola "Maria Peregrina", é psicóloga e psicanalista, formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e doutora em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Viviane é conhecida por "traduzir" a linguagem filosófica para as massas. Professora há mais de 30 anos, atualmente, investe na área da Educação. 

A filósofa - que começou a ganhar projeção com o quadro "Ser ou não Ser", exibido pelo "Fantástico", da Rede Globo, em meados dos anos 2000 - afirma que, nesta época em que vivemos, marcada por incertezas, a humanidade se depara com um dos maiores desafios de sua história: a fragmentação. "A gente desagregou tanto no século 20 que tudo o que no século 21 chama para reunir ganha poder, ganha valor", afirma. Para Viviane, a Filosofia tem o poder de responder às dúvidas e mostrar novos caminhos a serem trilhados. "Quando a gente não tem certezas, é a melhor época para a Filosofia", afirma. 

10/01/2015

A inevitabilidade da Filosofia

À parte alguns estudiosos, poucas pessoas sabem que Aristóteles (384-322 a.C.) escreveu uma humilde introdução à Filosofia, hoje conhecida pelo seu título grego: Protréptico. O livro foi muitíssimo influente durante cerca de mil anos - um pouco mais, portanto, do que O Segredo. Quando Boécio (480-524) escreveu a sua famosa Consolação da Filosofia, tinha em mente a obra de Aristóteles, cujas ideias lhe chegaram através do Hortênsio, de Cícero (106-43 a.C.) - que, por sua vez, era uma espécie de versão romana do original de Aristóteles. 
Por mais que muitas gerações de leitores se sentissem gratos a Aristóteles por ter escrito uma lúcida e iluminante introdução à Filosofia, este não é o tipo de obra que os académicos e os intelectuais - do passado e do presente - tenham tendência para estimar. Acarinharam, releram e mantiveram em boas condições as obras mais sofisticadas de Aristóteles, mas não a sua
modesta introdução. E foi assim que este livrinho de Aristóteles ficou perdido e praticamente esquecido, até Ingram Bywater redescobrir alguns fragmentos, já no séc. XIX. 
Uma das ideias expostas por Aristóteles nesse livrinho exibe com mestria a natureza da Filosofia. Não temos uma citação directa da passagem em causa, mas temos várias menções indirectas, e todas concordam que Aristóteles usou algo como o seguinte argumento a favor da Filosofia: "Se temos de filosofar, temos de filosofar; se não temos de filosofar, temos de filosofar; logo, em qualquer caso, temos de filosofar". Isto parece um daqueles trocadilhos que dão mau nome à Filosofia, mas há sabedoria nestas palavras. Trata-se de um pequeno argumento dedutivo, válido, com duas premissas apenas. A primeira é uma trivialidade, claro. A subtileza está na segunda. 
O que Aristóteles tinha em mente é que para argumentar que não temos de filosofar, temos de usar um argumento qualquer. Mas que tipo de argumento será? Quando pensamos nisso, vemos que não há argumentos biológicos, físicos, matemáticos ou históricos contra a Filosofia. Qualquer argumento contra a Filosofia teria de ser filosófico. Portanto, para rejeitar a Filosofia temos de filosofar. O que demonstra que a Filosofia é inevitável. Argumentar contra a Filosofia é como gritar: "Não estou a gritar!"
Não há maneiras não-contraditórias de argumentar contra a Filosofia porque a Filosofia é o estudo cuidadoso das nossas ideias mais básicas. Mesmo quem pensa que a Filosofia é uma palermice tem ideias filosóficas sobre a natureza do conhecimento (Epistemologia) ou da realidade (Metafísica). Filosofar é avaliar cuidadosamente essas ideias, em vez de as aceitarmos como se fossem as únicas alternativas viáveis. Assim, a opção não é entre ter ou não ter ideias filosóficas. É tão impossível viver sem ter ideias filosóficas como é impossível viver sem ideias físicas. A opção é entre tê-las, estudando-as cuidadosamente, ou ter a ilusão de que não as temos, só porque não nos demos ao incómodo de as estudar. 

Fontes: http://www.publico.pt/temas/jornal/a-inevitabilidade--da-filosofia-250766

Como vender a Filosofia


Os Quatro Filósofos, de Rubens (Palazzo Pitti, Florença)
MARK VANHOENACKER. <I>EXCLUSIVO PÚBLICO/SLATE</I>/THE WASHINGTON POST 

Só precisa de um produto - experiências imaginárias, por exemplo - e um plano de marketing.

Só os mais valentes ficariam ao lado dos filósofos no fim da sua guerra de influências com os cientistas. Para o filósofo que fuma o seu cachimbo enquanto reflecte sobre questões complexas, começa a fazer-se tarde e o tweed pesa-lhe nos ombros. Os cientistas têm os edifícios espalhafatosos, as manchetes mais sensacionais e o crédito pelos "feitos intelectuais mais impressionantes" da nossa era. A National Science Foundation (Fundação Nacional de Ciência) tem um orçamento de sete mil milhões, enquanto a National Philosophy Foundation... - ups!, esperem, não existe nenhuma.
Os comentadores falam da "crescente crise na filosofia" e lamentam que, "dentro de algumas décadas, toda a disciplina possa estar ameaçada". O Centro Nacional de Estatísticas da Educação dá conta de uma queda de 20% nas licenciaturas de Filosofia e Religião entre 1970 e 2009. A parte mais cruel, dizem os filósofos: "Somos ignorados durante os jantares."
Amy Ferrer, directora executiva da Associação Americana de Filósofos, enumera razões para o cepticismo em relação aos números da queda de licenciaturas em Filosofia. Mas reconhece que na origem de "qualquer percepção de crise" estão "impressões enganadoras sobre o valor e a utilidade da Filosofia". No vocabulário das relações públicas, a percepção de crise é uma crise.
Claro que os problemas de relações públicas da Filosofia não são nada de novo - veja-se Sócrates e a sua execução. Mas, na verdade, nada diz tão claramente "nós levamos-te a sério!" como um copo de cicuta. Cerca de 24 séculos depois, foi fácil para um crítico do New York Times concluir que "a Filosofia académica nos EUA deixou praticamente de tentar comunicar para a cultura em geral".

12/12/2014

Carta aberta à Filosofia

Que raio de saber és tu, Filosofia, que me estás sempre a mostrar que nada sei?
Quem julgas tu que és para me estares sempre a molestar com perguntas que parecem não ter fim.
Dizem que te chamas Sofia e que Sofia é o nome de sabedoria, dizem que és amiga, mas eu duvido que o sejas, porque às vezes, quando te faço perguntas, tu respondes-me com mais perguntas. Que diabo! Endoideceste?
Porque me obrigas sempre a ir buscar respostas complexas e não respostas simples?
Tanto trabalho, tanto trabalho e tão poucos louros! Se eu pudesse matava-te, Filosofia, mas nem isso me deixas fazer, porque se te mato, mato-me a mim próprio, porque não encontro o sentido da minha existência.
Dizem que és radical, mas eu nunca te vi a andar de skate, ou de patins em linha; em vez disso dás-me mais trabalho! Nem sei porque te escrevo, nem sei porque ainda te falo, tão pouco porque não posso fugir de ti! Será que em vez de ódio, é amor que sinto por ti? Vá, responde-me, Filosofia! Vamos, responde-me!

Sérgio Morais

Da utilidade da Filosofia

A Filosofia é inútil. Goza desta inutilidade não por virtude própria, mas sim porque lhe foi impingida: dado que não gera lucro, não oferece uma cura milagrosa para o cancro ou para a SIDA e não ajuda a fabricar armas mais destrutivas, a nossa sociedade tratou de a rotular como inútil.
A Filosofia oferece-nos, porém, a possibilidade de desenvolvermos o pensamento crítico, de alargar os nossos horizontes intelectuais e, sobretudo, a capacidade de amar tanto o saber como a dúvida. Mas, convenhamos, para além destes exercícios mentais serem extremamente trabalhosos, ao Homem “prático” da sociedade do senso comum bastam a tradição e as suas convicções.
Deste modo, a Filosofia até pode ser, efetivamente, inútil, mas a sua inutilidade reside exclusivamente no Homem de pensamento pequeno.

Pedro M. Pinto
Colégio Nossa Senhora da Boavista
10ºA
2014/2015