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28/07/2016

Sabia que Buda, Pitágoras, Sun Tzu e Leónidas viveram juntos?

Mapa interativo mostra personalidades que foram contemporâneas em vários campos do conhecimento


Enquanto Galileu Galilei observava o cosmo na Itália, William Shakespeare era um dramaturgo em atividade na Inglaterra. Enquanto isso, Caravaggio, pintor que apresentava à sociedade italiana uma arte obscura e nova. Ao mesmo tempo, Miguel de Cervantes esmiuçava as aventuras Dom Quixote, na Espanha. Eles não eram amigos, e muitos nem sabiam da existência uns dos outros, mas todos viveram ao mesmo tempo.

O Map of Contemporaries mostra quais grandes personalidades dividiram o mesmo período na Terra - muitas das vezes, sem nunca terem ouvido falar uma das outras. Por meio de uma interface simples e horizontal, é possível filtrar resultados por região e campo do conhecimento para traçar uma linha do tempo única. Com um clique, o mapa te leva à página da Wikipédia de cada personalidade histórica.

Em algum momento, Buda, o matemático Pitágoras, o filósofo Confúcio, o general Sun Tzu (autor de de A Arte da Guerra) e o espartano Leonidas viveram ao mesmo tempo. Milhares de anos depois, Karl Marx, Charles Darwin e Vicent Van Gogh partilharam décadas do século 19.

A linha do tempo criada pelo site utiliza o banco de dados do Panteon, um projeto de gráficos interativos desenvolvido por uma equipe do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets, EUA). Segundo Yuriy Bogdanov, programador e criador do Map of Contemporaries, a disposição horizontal da História é capaz de criar linhas do tempo imersivas, gerando perspectivas inteiramente novas sobre a História. O objetivo é que a proposta se torne colaborativa e a lista receba ainda mais nomes de notáveis.

12/07/2016

Elogio do cinema e da filosofia

Na produção americana de 2015, um dos falhanços comerciais que mais me desconcertaram foi o de The Walk, de Robert Zemeckis (entre nós lançado com o subtítulo O Desafio). Isto sem esquecer, claro, que não estou à espera de que os filmes que mais me entusiasmam sejam sucessos automáticos nem vejo a história dos filmes como uma odisseia "confirmada" ou "desmentida" pelos números das bilheteiras.

Acontece que The Walk parecia conter elementos mais do que suficientes para mobilizar muitos espectadores. Agora que o filme está disponível numa excelente edição em Blu-ray (com alguns extras verdadeiramente úteis para compreender a ambição e a complexidade do projeto), vale a pena voltar ao assunto. Isto porque The Walk evoca uma genuína epopeia, protagonizada pelo francês Philippe Petit, artista do arame que, a 7 de agosto de 1974, percorreu um cabo que ligava as Torres Gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque (a proeza foi também abordada por James Marsh no filme Homem no Arame, Óscar de melhor documentário referente a 2008).

09/01/2015

DEUS ESTÁ MORTO?



Se fosse um programa de comédia, o filme "Deus não está morto" estaria bem próximo do Zorra Total. Se a intenção dos produtores era criar um panfleto barato, conseguiram. Ou, para usar um conceito nietzschiano: arrebatar mais ovelhas para a moral de rebanho.

O filme cai no que, pretensamente, tenta combater: o dogmatismo. A começar pela apresentação caricatural do professor de filosofia que, em sua primeira aula, obriga os alunos a escreverem numa folha "Deus está morto". Os espíritos ingênuos que assistem a esta cena, podem mesmo acreditar que filosofia seja isso, quando é justamente o contrário. A filosofia, em si, é a suscitação do debate, diferente da religião. Ainda em relação ao professor, chega a ser cômica a maneira como o concebem psicologicamente: um ser arrogante, rude com a mulher e com os alunos, totalmente egocêntrico. Eis o maniqueísmo instaurado: o professor malvado e o aluno cristão bondoso (e injustiçado, claro. Porque o pobre calouro sofre preconceito, a namorada o deixa, enfim, todos os dramalhões para deixar sua vitória mais gloriosa). Além do mais, saberemos mais tarde que o ateísmo do professor é devido à morte da sua mãe quando ele era adolescente. Ela morreu de câncer porque as preces do menino não foram atendidas. O ateísmo, como fica claro, é colocado como sintoma de um trauma. Como algo mal resolvido (é constrangedora a cena em que o aluno pressiona o professor até que este diz que "odeia Deus por tudo o que Ele o tirou". Acreditem, eis o argumento mais forte do aluno: como você, professor, pode odiar a alguém que não existe?
Os argumentos que o aluno utiliza para "provar" a existência de Deus chegam a ser infantis. Qualquer pessoa que tenha lido dois ou três manuais de filosofia, teria vergonha de usar tais proposições. Dois exemplos: o aluno diz que, segundo Dostoiévski, "se Deus não existir, tudo será permitido". E, nessa linha, afirma a necessidade de um ser superior para o homem ser moral e para a vida ter algum sentido. Para começar, a frase é de um personagem de Dostoiévski, Ivan Karamazov (saber distinguir autor, narrador e personagem é primário). Depois, a frase não é bem essa e tem um contexto muito mais profundo: "Mas então, o que se tornará o homem sem Deus e sem imortalidade? Tudo é permitido, por consequência, tudo é lícito?" Terceiro que vincular a um ser metafísico a moralidade do homem é de dar risada. Inúmeros pensadores (Sartre, por exemplo) desmontaram esse argumento sem dificuldade.
O segundo exemplo é sobre a existência do mal no mundo. E o calouro, como se proferisse uma sentença genial, atribui sua existência ao livre-arbítrio. Se ele tivesse lido Espinosa, por exemplo, teria vergonha de usar tal subterfúgio. Outro ponto interessante é como o filme coloca religiões não-cristãs, ilustrada por um pai islâmico que é brutal com a filha que, olhem só!, quer se converter ao cristianismo!
Uma das últimas cenas do filme é patética: o professor é atropelado e o padre que o socorre na noite chuvosa (sim esse artifício também é utilizado!) o ajuda na conversão. O professor durão, no momento derradeiro, "aceita Jesus como o seu Senhor" e morre em paz.
Um dos pilares do cristianismo, Tomás de Aquino, se visse esse filme, acharia graça. Afinal, ele desautoriza o fideísmo gratuito, a fé do crente sem instrução. Inúmeros outros pensadores cristãos teriam vergonha desse panfleto.
Para terminar: o filme faz uma paródia de uma frase do Nietzsche (muito mal compreendida, aliás) que aparece nas obras A Gaia Ciência e Zaratustra. Acontece que se Deus não estava morto, o filme o matou.

Fontes: http://www.ribeiraopretoonline.com.br/coluna-matheus-arcaro/deus-esta-morto/85322